segunda-feira, 1 de junho de 2026

Primeiro ninho

 Um dia você olha

E tudo se faz diferente,

Já não é possível entender,

Construído na pouca certeza

Agora, caminho sem nenhuma.

 

“Voltei a escrever, passarinho. Fugi por um tempo, envergonhado. Um antigo amigo disse que minhas palavras eram um emaranhado de agulhas que o colocavam em sofrimento... Guardei as palavras para apodrecerem dentro de mim. Adoeci-me conscientemente. Ele está bem”.

 

Seu afeto era tédio,

Causado por mim...

Suas palavras foram indiferença,

E eu jurei tantas coisas bonitas

Hoje risíveis,

Atiradas ao escárnio...

Adoeceram.

Ado(rm)eci.

 

“Tento voar, passarinho, sem rumo, sem revoada. Desaprendi... Tenho medo da solidão que imponho a mim, tenho medo da solidão que me aguarda sentada com uma xícara de chá e silêncio. Não quero mais essas coisas perto de mim. Não há pele suficiente para mais feridas...”

 




Observo seus passos,

A raiva de tudo,

Reclamando dos dias,

Julgando outros voos...

Desenvolveu um medo do contraditório,

Uma antipatia de quem ousa discordar.

Tornou-se cruel com as palavras

E com a ausência dela.

Quando vem, é sempre sobre você.

 

“Já não tenho mais nada que você precise... Sinto muito! Fiz o possível e... não posso mais prover o que vá interessar. Abracei a angústia nas palavras e reneguei a amargura, passarinho. E mesmo com tantos tropeços não me permito a tristeza. Renego o retorno das coisas e minto a quem mentiu... Sirvo morno as horas frias e sempre respondo com distância. Troquei o amor pela educação”.

 

Giro em torno de mim, 

trôpego, não caio.

Eu sabia voar, lembra?

Continuo girando, 

Perdido,

Encontro...

Deixo ir.

Não quero mais saber de você,

Não quero mais que saiba sobre mim.

“Sei o quanto palavras bonitas são difíceis: prendem em seus lábios, sujam suas mãos... Tranquilize-se, o tempo passou, passarinho(s), já não importa mais”

 

 

Wanderson Lana

01/06/2026

segunda-feira, 2 de março de 2026

Estilingue


 

Ando doendo quietinho,

Sem barulho,

Sem grito,

Sem raiva.

Ando dormindo pouco,

Falando pouco,

Saindo pouco,

Sendo pouco.

 

Caminho pela casa

E paro,

Paro!

(Para, por favor).

Parei de escrever,

Parei de ficcionar,

Parei de ir...

 

Leio coisas tolas

Sobre tolices iguais a minha,

Bobagens iguais a mim,

Descartáveis igual eu fui... Eu sou.

Será que passa “quando”?

Será que existe um “quando”?

Por que de tantos “quando”?

 

Não quero o abraço,

Não quero a palavra,

Não quero as promessas,

Não quero o sorriso,

Não quero a história,

Não quero a desculpa,

Não quero seus medos,

Não quero seus traumas,

Não quero...

 

Dói e é melhor doer,

Doer é melhor.

E...

Dói,

Dói...

 

Por isso o silêncio,

Por isso a distância,

Por isso o desbotado,

(Sumiu com a cor)

A resiliência,

A pouca fé...

Eu sei...

Eu sei...

...

 

Ando dormindo pouco,

Caminho pela casa,

Leio coisas tolas...

Ando doendo quietinho.

 

 

Wanderson Lana

02/03/2026

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Brinquedo velho, jogado no chão

 

Eu estava correndo de novo,

Girando inocente,

Gastando sorrisos...

Espelhando a pouca ternura

Que essa nova idade ainda consegue prover.

 

Alheio às vaidades que se fizeram eu,

Injusto aos caprichos que alicerçaram eu,

Atirei-me em suplícios, pedidos bobos...

 

Há pouco implorava carinho, presença, afeto,

Tal como o limitado escritor que performo

– Falhando em escrever a vida –

Surpreendo-me tropeçando em tentar vive-la também.

 

Crendo que a saudades, que muito sinto, é retórica,

Enganando-me sobre ser condição a ausência e não escolha,

 

Brinquedo velho jogado no chão,

Guardião saudosista de uma ética que o próprio peito inventou...

Estúpido, estúpido, estúpido...

Enquanto perdia as asas na luta dos outros,

Ceavam os outros em brinde a minha estupidez.

Enquanto implorava aos outros abraços,

Percebi que não estava mais em alta “me abraçar”.

É tão ultrapassado ser assim...

 

Fiquei quieto, comigo, pequeno.

Escrevendo poemas, embriagando-me de vinho e do passado,

Ajustando-me para seguir assim.

 

Um bom aluno aprendendo a ser distante.

Eu, decepcionado, “deixando pra lá”.

 

 

Wanderson Lana

19/12/2028

15:48


terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

A Formiga e a dificuldade de ficar



Cada vez mais , nas costas da pobre formiga, pesava viver…

Desequilibrava-se diante dos contornos e vultos que eram colo e agora apenas transitava entre excesso de palavras e faltas de ações.

Deveria, eu ia, ajudaria, abraçaria - abraçar no futuro do pretérito não deveria ser permitido…


Perdeu o caminho.

Não entendia o mundo em que amar era esforço e não privilégio. 

O mundo em que não pesava nada ver o amigo partir…

Escreveu nas folhas que carregava algo bobo, para deixar ir com o vento

- as palavras e a folha das palavras -.


O mundo já não lhe cabia assim,

Não sei precisar mais.

Dormiu e não amanheceu,

Sumiu da casa para a qual sempre voltava

Ou da vida que lhe pesava as costas…

Dela, só sobrou um poema numa folha que o vento não deseja entregar…


Ah… poderiam tanto agora que você partiu,

Amavam-te tanto agora que você não está,

Ainda mais palavras agora que não podia ouvir,


Tantas promessas que poderiam ser e não foram

culpa do tempo, dos outros, do cansaço dos dias… -


Só houve possibilidades quando você não existiu…

Então, por favor, não se sinta mal.

Só repouse onde o amor é maior ou continue os passos…

Saudade que quer permanecer saudade é remoso ao coração.


No espelho a minha frente, sobre minha cabeça,

Reflete antenas de uma cansada formiga…



Wanderson Lana

13/02/2024

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Caminhada

 

 


 

 

 

Ontem olhei e ficou diferente, sabe?

Tinha umas coisas que eu sentia e não deixava crescer

E ontem deixei.

Abraçou meu peito,

Consumiu minha alma,

Devastou um solo onde já nada crescia.

As vezes somos desejosos de um solo que é deserto.

 

Existem mundos onde o amor entranha você,

Insistente, deitamo-nos na porta e aceitamos o que é possível.

Entregamos tempo, horas, dedicação

Em troca de poucos momentos de sorriso.

Em troca de uma vida que escorre das mãos.

 

Desculpa, não posso mais ficar,

Precisamos, no mundo que nos deram, equilibrar as coisas

E você...

 

Você não me ama...

Ama a ideia de me amar...

Dentro de você

Dizer é bonito e o suficiente,

Mas há sempre outras coisas

Que precisam ser feitas antes do abraço.

 

O trem saiu e ao olhar para trás ninguém corria,

Está tudo bem, eu entendo,

O dia tá cheio,

Há outras coisas,

Outras pessoas,

Outros momentos...

Eu entendo,

Mas não posso ficar mais aqui.

Plantei tantas árvores e nada cresceu onde vivo,

O fruto acabou e tenho fome...

 

Eu tenho fome... Desculpa... Tive que ir.

 

 

Wanderson Lana.
26/06/2023

domingo, 4 de junho de 2023

Desistências


 

Ando dado às desistências,

Das coisas,

Das palavras,

Das pessoas...

 

Olho, percebo

E já teimo em dizer.

Fujo no primeiro sinal de desinteresse,

Na ausência da palavra, do abraço...

Do beijo iniciado já com gosto de fim.

 

Ando cansado do pouco,

Do raso,

Do mínimo...

Ando cansado de doer.

 

 

Wanderson Lana

04/06/2023

21:49

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Sublime

 


Sublime

 

 

Trôpego, bambo, feio

Enfrento o sol com minha pele rala,

Tento produzir energia para caminhar

Diante de tanto obstáculo, caio...

Consigo levantar, mas já não quero.

 

Talvez eu tenha nascido para o chão...

 

Respiro fundo

(E ando tão raso),

Olho para dentro e converso com o lado bom de mim

Ele não responde mais

Emudeceu-se,

Cansou-se de mim,

Como tudo e todos que amei.

Cansou-se

Dessa minha insistência em continuar.

 

Andei me cercando de tanta negatividade

Que me tornei negativo também,

Peso vidas e almas por onde passo.

Não consigo florir em meio às pedras

Porque, agora, sou pedra também...

E não aguento uma vida machucando as flores.

 

Então me deixa aqui,

Vai embora,

Não sirvo mais para as coisas que você precisa,

Não posso verter mais nada do que gosta

Sou apenas eu,

A insuficiência de ser eu

Fecha a porta de fato, ela já estava fechada,

Caminha rápido

Já não tenho mais nada... Não sou nada.

Sou apenas apenas o que ficou.


Sublime... Sublime...

Eu queria bastar,

Sem precisar ser outra coisa...

Sublime... Sublime...

Deve ser lindo ser motivo de saudade, 

(Que deseja encontro)

Sublime... Sublime...

Eu queria bastar.

 



Wanderson Lana

28/09/2022