quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Sublime

 


Sublime

 

 

Trôpego, bambo, feio

Enfrento o sol com minha pele rala,

Tento produzir energia para caminhar

Diante de tanto obstáculo, caio...

Consigo levantar, mas já não quero.

 

Talvez eu tenha nascido para o chão...

 

Respiro fundo

(E ando tão raso),

Olho para dentro e converso com o lado bom de mim

Ele não responde mais

Emudeceu-se,

Cansou-se de mim,

Como tudo e todos que amei.

Cansou-se

Dessa minha insistência em continuar.

 

Andei me cercando de tanta negatividade

Que me tornei negativo também,

Peso vidas e almas por onde passo.

Não consigo florir em meio às pedras

Porque, agora, sou pedra também...

E não aguento uma vida machucando as flores.

 

Então me deixa aqui,

Vai embora,

Não sirvo mais para as coisas que você precisa,

Não posso verter mais nada do que gosta

Sou apenas eu,

A insuficiência de ser eu

Fecha a porta de fato, ela já estava fechada,

Caminha rápido

Já não tenho mais nada... Não sou nada.

Sou apenas apenas o que ficou.


Sublime... Sublime...

Eu queria bastar,

Sem precisar ser outra coisa...

Sublime... Sublime...

Deve ser lindo ser motivo de saudade, 

(Que deseja encontro)

Sublime... Sublime...

Eu queria bastar.

 



Wanderson Lana

28/09/2022

terça-feira, 30 de agosto de 2022

O Pássaro feio

 



Existiu um pássaro

De asa quebrada e bico descorado

Feio em sua forma de ser e de voar.

Angustiava-se fácil,

Como se o universo despejasse sobre suas costas a culpa do mundo,

Caia, frágil ao peso das coisas, com facilidade.

Ficava em silêncio torcendo por ajuda

Até perceber que só lhe sobraria o levantar sozinho.

Teimoso, insistia

Como se pudesse enfrentar as dores mais profundas sem sangrar.

Ciscava no chão migalhas de sentimentos

Encontrava palavras que nunca viravam nada além de palavras,

E transformava o pouco que ciscava no combustível de uma vida,

Tolo, caia de novo...

Machucando o chão

Impedindo as flores

Cada vez mais fundo

Como chumbo

Como pedra sem valor nenhum para os homens

A não ser o desvalor de ser pedra.

Arranhado, levantava-se...

Perdido, levantava-se...

Sozinho, levantava-se...

Levantar-se, ainda, acreditando nos seres e nas coisas,

Levantar-se quando seria mais fácil ficar ali,

Ainda feio, com seu bico descorado, com a asa quebrada,

Com a culpa do mundo...

Levantar-se para cair de novo.

 

Existiu um pássaro que, apesar de tudo, acreditou.

 

Wanderson Lana

30/08/2022

quarta-feira, 21 de abril de 2021

O Retorno dos Elefantes


 

 

Eu não sei se eu sonhava,

Mas, nessa noite, caminhava sobre meu peito alguma coisa,

Banhei-me de medo,

Em um só fôlego, acordei,

Não vi nada...

As pegadas firmes,

Sentia um peso que parecia o mundo,

Não quis gritar... Não quis nada.

Não esperava viver tudo de novo...

Não sei,

Incuti à mente sonho,

Esperto, cuspiu ao peito lembranças.

O peso aumentou,

A gravidade se fazia insuportável.

“- Senhora, por favor, senhora. Elefantes não existem”

Balbuciei em oração, sete vezes, para a liberdade da alma.

Não consegui me levantar.

Como um soco forte perdi o fôlego,

Acreditei no abraço, no sorriso, no pouco tempo que permaneceu ontem...

 

Aprendi...

É sempre ontem ou possibilidade, elefantes nunca são.

Egoístas, fixaram os pés que me mantém preso,

E eu... Inerte...

Bobo demais, crente demais, afetuoso demais, fiel demais, ridículo demais,

Tolo, tolo, tolo... Como pude acreditar que um elefante seria meu amigo.

Tolo, tolo... moleque ingênuo e tolo...

Tudo me fazia ficar e eu agora precisava fugir.

Eu preciso fugir.

Não há paz e nem felicidade, seja na resignação, seja na fuga,

Só há um corpo cansado de abraçar sozinho.

 

Meus melhores amigos eram elefantes...

Eu já disse isso...

Eu já disse isso...

 

Wanderson Lana.

 

18/04/2020

terça-feira, 21 de abril de 2020

O Mapa do meu coração


Escrevo coisas bobas já adulto,
Falo de besteiras do peito...
Você não entenderia.
Lançamos pistas e criptografias
Em um terreno onde só crescem desatenção.
Levante o copo e brindemos – Eis o momento:
Aos amigos, aos amores, aos afetos...
Ofereço-lhes o mapa do meu coração.

A primeira estrada
Exige esforço físico e memória,
Olhar a lua e sentir saudades,
Depois correr ouvindo “I Apolodise” do Moss,
Repeti-la sete vezes como um mantra,
Se sorrir, depois de tudo, procure um banco de praça qualquer,
Eu estarei lá com um abraço.

O segundo caminho
Vai lhe roubar pedaços,
É preciso pesar as estrelas partidas e as que iluminam a gente
Na palma das mãos,
Aguenta... Será julgado pela falecimento dos vagalumes
Que nos protegiam do medo...
Assista “Ano Hana” e depois tenha pressa,
Conte até dez e me encontre debaixo da árvore,
Antes que eu desapareça, Lembra?
Eu estarei lá com um abraço.

No terceiro lugar
Não crescem flores,
Pisaram todas e jogaram sal,
Perco-me em pessimismos ao perceber as pétalas amassadas em suas botas
E as mãos sujas do branco que não permite mais crescer.
Será exigida paciência na germinação das rosas e dos afetos,
Sinto dizer que alguns lugares perderam, eternamente,
a possibilidade de produzir de novo,
Leia a página 93 e 94 do livro azul
E reza um mantra enquanto semeia as coisas que destruiu,
Se conseguir me encontrar antes que o sal destrua meu corpo,
Eu juro...
Eu estarei lá com um abraço.

Onde mora o X indicando tesouro
Cercaram das mais medievais e indescritíveis feras e bestas.
Preocupa-me esses monstros construídos no silêncio e na palavra
Eles me prendem...
É me dado o direito de dizer, mas impedem-me de sair,
Eu não grito,
O que assusta o peito protege o coração,
Não há luta,
Eles não possuem a natureza violenta,
Na verdade, toda a raiva se perde no mais raso dos afetos,
É preciso mergulhar...
Cozinhe seu prato favorito e o meu também,
Festeje a alegria de estarmos vivos, mesmo distantes,
Depois, não importará o lugar: eu prometo! Pode ir...
Eu estarei lá com um abraço.


Wanderson Lana
22/04/2020