terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Incidir em mim
Foi involuntário... Debaixo do chuveiro, primeiro dia do ano. Como um ritual rosti bem forte o sabonete no peito limpando os pontos de feridas que não vão sarar, mas limpas não infeccionam. Descansa o coração, orei. Não a Deus, orei a mim, ao Eu de dentro e ele escuta, se você insite um dia escuta. Escutou naquele dia e me fez bonito no espelho. Dois anos me fizeram tão feio, agora a imagem refletida é bonita... Sou o mesmo e a imagem não.
As roupas eram novas, o lugar novo, as pessoas me olhavam, me amavam, me queriam e eu também querendo conhecer todas aquelas pessoas que já conhecia, doar a elas todos os meus sorrisos, minha presença, o meu lado feliz - que existe, eu promete, ele existe. - Eu querendo correr com qualquer alguém capaz de segurar minha mão bem forte e dizer "Estou aqui, não vou até o fim da estrada contigo, mas enquanto estivermos ligados não te deixo... E depois prometo lembrar sempre e te fazer saber que lembro", sorrindo deixo, me deixo. Correndo e conversando coisas profundas e vertendo lágrimas ebolidas pela pele sem deixar marcas. Eu me vejo assim. Então abraço todo mundo, olho uma moça de olhos claros e sinto seu amor, retribuo sem medo com olhos de "Você me esperou e estou aqui... Obrigado por me esperar".
Não há certezas agora, não se confunda. Na verdade aprendi que nada nunca é certeza, que certeza é uma palavra como futuro, existe, mas é abstrato e inalcansável. Entende? Eu entendo... Entende também.
Sou como uma poema: cheio de palavras erradas. Sim, uma palavra só é bonita em um poema porque está errada, palavras certas são da gramática e não da poesia. No poema elas dizem outras coisas, não é o que está escrito, amor... amor... Leia com o peito, vai. Verbo de poema não conjuga. E sou pretérito imperfeito nesse presente reticente de um futuro sem pretérito nenhum. Corre comigo, segura minha mão e diz que vai lembrar e vai me fazer saber que lembrou. Corre comigo...
Wanderson Lana
terça-feira, 21 de junho de 2011
A lápis
Não foi rabisco,
E ainda assim toda escrita a lápis.
Nos campos do romantismo, onde pássaros e flores ornavam o cenário
E o vento certo carregava um futuro que era possível alcançar,
Palavras ditas e silenciadas não existem mais...
Acreditar no baú que guarda é se perder do tesouro.
Então olho o branco da folha,
Sinto uma história
E até afirmo poder ver,
Mas no branco da folha, só há o branco...
- Eu sinto... eu sinto...
E crio histórias de sentir,
Histórias de chorar,
Histórias de amor...
Que estavam ali, – Eu juro!
E que agora eu crio.
Você me escreveu a lápis,
E já não escavam vestígios meus em seu peito.
Sempre volta para as coisas que me afastam e lá
Permanece seguro, entendo... E me afasto.
Estou quieto...
Choro a noite por ter escrito assim, com letra bonita e cuidadosa,
Com uma tinta que demora, mas sai.
Chorou e ainda chora pela partida de outros amores,
Mas à minha se alegra, embarca a escrever
Em rascunhos as verdadeiras palavras de amor
Que a borracha não apaga...
Apaga a mim... Papel em branco, não há mais nada.
Foi escrito a lápis,
Se lembra, é com segredo e não sorriso.
Não é raiva, ou dor ou solidão...
É tristeza de um coração dizendo:
“Se era preciso escrever a lápis, não escrevesse então”.
Wanderson Lana
21/06/2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
Abstinência
Há um grande pedaço do todo de mim que padece em abstinência,
Não porque parou, porque busca e não pode encontrar...
Tenho sonhos, carinho, beijos e abraços,
Mas não tenho palavras...
Careço as palavras.
Se os beijos me acalmam,
Se os abraços me confortam,
Está nas palavras a paz que me permite seguir.
Então caminho assim,
Olho e não vejo e aceito... E espero as palavras,
E concedo as palavras
Em formas, cores, sons,
Em gosto que meus lábios já recebem.
Olho singelo e peço pronomes, verbos, adjetivos...
Para que assim o dia possa começar.
Estou parado há algum tempo,
Se você me ver
Responda que dia é hoje.
Está nas palavras a paz que me permite seguir.
Wanderson Lana
17/05/2011
domingo, 24 de abril de 2011
Antes de Dormir
Ainda penso,
Enconsto a cabeça no travesseiro e demoro dormir,
Já é madrugada e o telefone não toca
e não vai tocar.
Mesmo assim eu penso,
fraco agora,
leve aceno de esperança aos dilacerados pensamentos bons.
Não demora muito, cedo ao sono
E não lembro de sonhar.
Estive errado tanto tempo,
ápode a caminhar
pelos inúteis contornos da fé.
Retirante do peito que enfraquece e pede abrigo.
Descobre depois o erro em voltar e parte...
E volta de novo, e decobre... E assim...
Permanece assim, em jornada.
Ainda penso, pouco, leve e suave.
Mas não acredito mais.
Wanderson Lana
24/04/2011
quinta-feira, 17 de março de 2011
Pégasus
Você não existe,
E assim eu te quero,
Imagino...
E espero com a certeza de ter um dia.
Através da janela vejo seus pés quase flutuarem,
Não é vôo... é passeio.
Com um olhar escuro me convida
Não para voar,
Para flutuar também.
Então me deixo,
Varo a janela... pés descalços na lama,
Ganho feridas que vão doer depois...
Mas que importa o depois
Se existe agora um convite seu?
Você não existe,
Chego e descubro...
O mundo fantástico
Foi eu que criei.
E acredito...
Sou criança que permanece na escola,
De tanto querer voltar pra casa,
Como castigo,
Vira a criança que permanece.
Estava errado,
Por muito tempo estive errado...
Olhos, janela...
Ainda está lá,
Flutuando com essas asas que não se movem
Tão bonitas, mesmo assim.
Quero correr de novo,
Sujar os pés de feridas pra depois...
Mas se corro não consigo deitar
E estou tão cansado.
Você não existe.
Existe?
Wanderson Lana
17/03/2011
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Verdades e mentiras sobre a chuva
É possível voar quando os dedos da mão e dos pés enrugam num mesmo momento,
E quando é tempestade e se tem um guarda-chuva preto os raios não atingem você...
É como sumir de repente.
E se sua mente tem um amor ou um passado, ou uma esperança ou alguma coisa que o fez ficar parado, ela não molha.
A chuva só molha quem é correspondido.
É fácil chorar, porque a lágrima se confunde com a chuva,
E se tiver lua nova, os dois líquidos se encontram realizando um pedido seu...
É como ter a dor e o alívio.
E se seus pés encharcam, ou os sapatos, ou a terra, ou qualquer coisa que te faça ficar firme, o tempo pára.
A chuva permite lembrar sem pressa.
É quase certa a ausência do sofrimento causado pela dor,
E quando os trovões se unem na composição de uma sinfonia que você entende é bom,
É como deitar sobre um colo.
E se o vento vem forte e seus olhos insistentes decretam permanecerem abertos não perecendo a todas as poeiras do passado dos outros, você suporta.
A chuva antecipa a força de depois.
É simples sumir se você não agüenta e desaba,
E quando as nuvens se fazem escuras e tudo parece acabar você começa,
É como quebrar e juntar e ser novo.
E se você grita com força mostrando com medo, mas... sem medo as coisas nos olhos escondidas, você consegue de volta.
A chuva permite dizer a verdade e ainda possuir.
É comum acreditar quando, aos poucos, ela ciosa termina
E quando os pingos não são mais suficientes, você não quer mais entender.
É como esquecer e agüentar.
E se você vai embora acreditando que... se é pra ser tão fraca então que pare de chover de uma vez, você enfrenta...
A chuva permite as mentiras e verdades sobre ela.
Wanderson Lana
14/02/2011
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