Houve um tempo onde cachorros vertiam asas,
E sem nenhuma dificuldade, conseguiam nos erguer no vôo.
Preocupados com o gozo, aquém da prudência... Atreviam-se ao mais alto possível.
E lá, onde os pés sempre quiseram tocar sem asas, não se atreviam a nada,
Fiéis, comemoravam um desejo inerente a si...
Este tempo, tempo dos cachorros de asas,
Chovia sempre no fim da tarde, quando o sol, gigante, quase embalado nas montanhas, ameaça desfalecer.
Assim fraco, permitia o perpetuar das poças,
E minha infância corria, mergulhava em sua profundidade rasa e irrelevante.
- Livre...
Escutava latidos formarem sons e fugir.
Enleado, a infância então desprendia e também era som.
Tempo em que podia voar e voltei,
Tempo em que podia falar sem vergonha,
Tempo em que se tinha tempo e o tempo era seu.
Tempo onde cachorros vertiam asas e não negavam o céu...
Tempo a favor, que hoje vento, sopra contra e enruga a face.
Tempo...
Minha infância corre entre poças...
Sorri, solto, e late para um cachorro que... Pode voar o cachorro.
Distantes, mas ali, causando a ilusão de ainda existir.
Num tempo em que podia voar e voltei.
Wanderson Lana




