sexta-feira, 2 de julho de 2010

Cachorros e asas


Houve um tempo onde cachorros vertiam asas,

E sem nenhuma dificuldade, conseguiam nos erguer no vôo.

Preocupados com o gozo, aquém da prudência... Atreviam-se ao mais alto possível.

E lá, onde os pés sempre quiseram tocar sem asas, não se atreviam a nada,

Fiéis, comemoravam um desejo inerente a si...



Este tempo, tempo dos cachorros de asas,

Chovia sempre no fim da tarde, quando o sol, gigante, quase embalado nas montanhas, ameaça desfalecer.

Assim fraco, permitia o perpetuar das poças,

E minha infância corria, mergulhava em sua profundidade rasa e irrelevante.

- Livre...

Escutava latidos formarem sons e fugir.

Enleado, a infância então desprendia e também era som.



Tempo em que podia voar e voltei,

Tempo em que podia falar sem vergonha,

Tempo em que se tinha tempo e o tempo era seu.

Tempo onde cachorros vertiam asas e não negavam o céu...

Tempo a favor, que hoje vento, sopra contra e enruga a face.

Tempo...



Minha infância corre entre poças...

Sorri, solto, e late para um cachorro que... Pode voar o cachorro.

Distantes, mas ali, causando a ilusão de ainda existir.

Num tempo em que podia voar e voltei.



Wanderson Lana



quinta-feira, 17 de junho de 2010

Portão de Madeira ao Relento


Minha casa tem um portão de madeira e tem ferrugem

Tem um portão de madeira sem uma casa pra guardar

Fica ao relento, seguro.

Não cede ao vento, ao rústico, às palavras duras, nem às decepções.

Cede a você...

Ele se abre,

Faz entrar enquanto ainda está fora.

E quando ouço a tranca cerrar, ainda assim permanece.

Longe e está aqui.



Minha casa não tem casa – só portão.

Um portão de madeira enferrujado pela agonia que embrulha o estômago e não escorre.

Ferrugem brotada.

Resistente, trancou-se ao mundo

De todos os caminhos, de todos que bateram a porta, preferiu a agonia...

Preferiu amar ao amor.



Os pés, desgastados, não tocam o chão

Ao longe, parece inevitável desfacelar

Mas é seguro...

Resiste ao vento, ao rústico, às palavras duras... E a decepção?

Enfurruja...

Até um portão de madeira guardião sem casa, enferruja

Ao relento.

Teimoso, só cede a você e a mais ninguém.



Wanderson Lana

domingo, 23 de maio de 2010

Carta ao amor que sinto


Amor, irei matá-lo dentro de mim
Sorrateiro, meu peito não suspeita
Inocente e algoz... meu peito não suspeita.
Arrancareias raízes,
Perderei esse frio que causa asco
Que me faz chorar.
.
Amor, ontem escrevi para que soubesse,
Ontem escrevi para que soubessem
"Eu te amo e sinto a sua falta"...
Não escondi em meu intimo
Não fiz da verdade objeto meu,
Escrevi lançando ao vento... Eu te amo e sinto a sua falta.
.
Amor, os dias permanecem sem canção,
Nossas horas dissiparam em "minhas" e "suas".
O coletivo se tornou pretérito
E eu não sei ler...
Escrevo ao vento, agora brisa sem resposta
E eu não sei ler.
.
Amor não me permita decretar o fim
Depois sofro - você sabe
E frágil, choro , desfaleço, sinto.
Enfrento o amor para que ele resista
Triunfante, reitere ter vindo pra ficar,
E no peito permaneça... Fortalecido.
.
Amor irei matá-lo dentro de mim,
Amor... Amor...
Eu te amo e sinto sua falta.
.
.
Wanderson Lana
23/05/2010

sábado, 17 de abril de 2010

Independência



É sete... Independência,

E meu peito inda cativo,

Mole, desgostoso.

Perdido nas situações que escolhe

Ou errado no amor ao que se permitiu ceder.


A independência não existe aqui,

Cada dia feliz ganha uma noite a ser esquecida.

E cada pequena falha, faz a mente repensar uma vida inteira,

onde não houve erro algum ou falha que justificasse repensar a vida.


Desgosto as cores como se realmente fosse capaz de identificá-las.

E por ser tão simples odiar, em meu corpo se torna epidemia,

Depois das cores vêm minhas mãos, meus olhos, meu jeito...

Atinge qualidades das quais me orgulho,

Atingem o melhor de mim.

Cativo, deixo...

Presa que se permite presa.

No fim das coisas que contam, sou só vazio.


E vago vazio como se esse realmente fosse eu.

Viro as coisas que meu peito erra,

Então me permito a dor

Porque dói!

Mesmo o peito vazio, dói...


-Preciso encontrar outro amor!

-Preciso amar quem me ame também!

Prometo a mim mesmo como em oração.

Depois que esse amor morrer em mim,

O outro me permitirá viver.



Wanderson Lana
07/09/2009

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sussurre para não acordar



Está ali
Chegou há pouco
Silêncio... pois agora descansa.
Não canta
Não voa
Esquece a sede
Confronta a fome
e dorme...
Aquele que lutou contra o vento achou um ninho
e no silêncio dorme.
A asa ferida
A rouquidão
O fracasso...
Deixou a mente vazia pra não lembrar.
Silencio!...
Ele dorme
Achou um ninho frágil que protege...
E dorme,
repousa,
depois de tanto tempo...
Há pouco cantou sua dor
Todo o mundo ouviu
Só um alguém que não
Quem importava não ouviu.
Silêncio, agora chega!
Deixa assim
quieto,
Não lembra não
está tão cansado...
Voou contra o vento
Não foi ouvido.
Calado e sem forças,
queria não chegar...
Agora está bem,
Agora descansa
Silêncio...
Silêncio...
Está com a mente vazia
Já vai sonhar.
Silêncio!
Já vai sonhar...



Wanderson Lana
04/04/2010

domingo, 28 de março de 2010

As duas mãos



Duas mãos unidas e de sentimentos desiguais

Uma passeia e afaga

Outra segura e desdenha.

Duas mãos...

Uma só.


Juntas se fazem lindas

Separadas são lindas também

Quando solta, uma triste, procura

A outra, livre, se sente bem.


A pequena é a mão mais forte

Não se envolve e em breve dirá adeus

A pequena é forte

E externa os detalhes rústicos

Quando vai tocar.


Na noite que se encontraram

Uma mão sentiu que não quis

A outra de amor, traiu-se

Sem o mínimo final feliz.


A maior é a mão mais frágil

Precisa soltar, mas se ilude ao unir

A maior é frágil

E com toques suaves tenta conquistar...

A mão que nunca será sua.


São duas mãos tão unidas

E de sentimentos desiguais

A mão forte que não se importa

Fez da fraca não querer mais


Wanderson Lana
28/03/2010