quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Desapego







Tira o chinelo da porta
Faça a cama
Troque os vasos amarelos da janela
Desapega...
Coloca outro filme
Vira à direita
Não, à direita
Abstrai o sorriso
Muda, desapega...

Chora também
Atira o copo
Suja a roupa
Passa a música
Muda, aceita, desapega...
Desfaz a rosa
Abre a janela
Faz o suco
Roa a unha
Aceita, chora, muda, desapega.

Começa a fumar
Pára de fumar
Começa a correr
Pára de correr
Chora, aceita, muda, aceita, desapega
Escreva um poema
Escreva uma carta
Visita o amigo
Conversa
Aceita, aceita, aceita, muda, desapega.

Tira o chinelo da porta
O cheiro no quarto
E o toque na pele
Desapega...
Desapega.

Wanderson Lana

domingo, 10 de outubro de 2010

Passarinhos não devem voar




Não... Deixou-se levar, passarinho...
Estava aquecido e quis voar...
Lembrou, agora, que o vento é forte
E machuca o seu olhar cansado.

O repouso incomodava, passarinho.
Parado, sentiu vontade em se atirar.
Lembrou do primeiro vôo, o receio, o medo...
Lembrou e mesmo assim voou.

Voar agora dói, passarinho
E o ninho, quente, o faz querer alçar.
Busca um som, uma canção que acalenta... Que seja doce
Que seja doce...
E percebe que as canções assim só ele... só ele sabe compor.

Está fora do ninho, passarinho.
Livre, mas sem ter para onde rumar,
Não se arrepende e nem se alegra, fica assim...
Pensou que seria diferente, mas essa brisa, feliz da primavera, é sempre igual.

Você quis voar, passarinho...
Sabia de tudo e quis voar.
Deixou-se, estava parado e no ninho...
Livre, compõe uma canção que apenas sua noite irá entender...

Passarinho.
Passarinho...

Wanderson Lana
     10/10/2010






quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Vontade em meio ao jeans de segunda-feira








Não tomou banho, apenas vestiu a calça, Jeans, um pouco batida – apenas um pouco, imperceptível –, calçou os sapatos novos e reorganizou o cabelo. Estava pronto, não pronto para viver aquele dia, mas pronto para sair em direção ao trabalho e apenas trabalhar, sem pensar em nada importante. Calçou os sapatos – novos, bonitos – e de repente quis chorar. Isso mesmo, assim, simples, quis chorar. Pensou em voltar pra cama, dormir um pouco ou apenas tentar encontrar o sentimento canalizador de tão estranha sensação.
Não deitou, não sentou e não chorou...
E mesmo não tendo feito nada ficou intrigado com essa sensação de querer chorar. Os motivos eram muitos, se houvesse concentração naquele momento poderia enumerar as possibilidades de estímulo às suas glândulas lacrimais simples como escrever uma carta de despedida. Involuntário foi seu corpo, como se não o pudesse controlar, se comentasse muitos diriam ser um fato comum, falariam sobre vontades que vem do nada e ele não queria ouvir... Não, enquanto dirigia seu carro e escutava uma música boa, mas de história ruim, decidiu não dividir a sensação de choro no meio de um quarto onde as paredes descoradas não traziam nada: Nem alegria nem tristeza suficiente para explicar uma vontade involuntária assim. Dirigiu intrigado e mesmo assim sem lembrar, sem conceder vida às angústias que da última vez chorou.

A última vez... Cama desconhecida... Ventilador no teto... TV ligada (Não se lembra o canal)... Lembranças... Cartas... Não agüentou. E chorar foi tão fácil, que agora no carro, não entende os motivos de não mais lembrar, de não ter se permitido chorar no meio do quarto. A última vez... Um filme (Não consegue mesmo lembrar o canal)... Chorou pouco... Dormiu... Acordou... E esqueceu.

Pensou em acender um cigarro ou beber uma cerveja enquanto dirigia. Irritou-se por não fumar, e não beber uma cerveja nem quando passageiro, muito menos quando motorista. Não, não iria mudar nada por conta de uma vontade sem explicação – que poderia ser explicada se quisesse explorar sentimentos adormecidos –, não, mudanças não devem ser feitas enquanto dirige um carro, calça um sapato novo ou sente uma vontade de chorar no meio de um quarto deserto de sentimentos presentes, cercado do que passou. Cantou uma música diferente daquela música ruim vinda logo depois da boa – mas de história ruim –, colocada para repetir inúmeras vezes até gastar, mas que naquele dia – sem um motivo claro – não colocou para repetir e nem voltou... Deixou o CD correr e ele correu sem merecer sua atenção, estava absorto em cantar outra música – bonita e falava de dormir sem medo, história bonita –. E assim, deixou ir embora de vez a vontade de chorar.
E o que causou?
Como se possuísse duas faces, como se fosse de gêmeos e não de leão, via-se questionar e não responder, via-se exigir e vacilar, insistir e desistir, implorar e esquecer, desesperar-se e sentar; via-se acalmando suas próprias inquietações. E assim se fez normal, duplamente perdido, mas normal... Quando chegou no serviço perguntou ao patrão qual seria o horário da saída, o patrão estranhou respondendo, e à resposta imposta não manifestou nenhuma grave mudança de semblante muito menos uma mudança de sentimento. Apenas aceitou, como quem aceita ser segunda-feira e vai trabalhar preocupado apenas com a hora de sair.
Wanderson Lana
     28/06/2010 

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Coração vencido


Então, agora, irei ouvir o meu chorar, amor...

Tente imaginar também...

Dois corpos suando no prazer pelo prazer

Enquanto um êxtase suspiro explode em marcas no corpo

O outro teima em lembrar

Esquece e lembra

No ritmo dos corpos

Esquece, Lembra, esquece, lembra...

Não esquece mais.

Explode o prazer e o corpo vencido... O corpo suprido lembra de chorar.

Mas não chora por amor esse coração que de amor sofre

Arranha-se por dentro com a sangria endurecida,

Não sabe se bate ou se pára... sabe que mexe

Não sabe se dói ou se acalma... sabe que mexe...

Tente imaginar também

Outra conversa com vozes que se encaixam num mesmo assunto

Pessoas disputando o prazer de falar e serem ouvidas

Com tantas coisas a dizer

Tantas pessoas pra ouvir

Cala-se.

Cala-se e vai lembrar

Ali parado vai lembrar

Perde as coisas do mundo, a opinião interessante de quem tem muito a dizer.

Enquanto falam de equações a mente intensifica a necessidade de chorar.

Mas não chora esse olhar que verte lágrimas

Afunda-se na órbita, se martiriza

A sobrancelha que é suave salta e disfarça

O seu olhar que é irreal fica e disfarça.

Tente imaginar também...

Comigo... Agora,

Irei ouvir o meu chorar, amor.

Irei...

Tente... Agora...

Wanderson Lana

09/09/2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ao gato que arranhou o sofá

















Sim, é pra você este poema.
Preguiçoso e desdenhoso, talvez nem leia
E continue a se espreguiçar,
Arranhar o sofá da sala,
Banhar-se de si mesmo
E adormecer tranquilo.

Não, não há pesar em você;
Nem pelo sofá, nem... Deixa... Nem pelo sofá.
Carrega na mente só o despertar e mais nada.

Ontem afastei o prato, o leite pareceu do cachorro.
Tímido esforço de revolta contra você que... Nem ligou;
Não ligou, roçou minhas pernas;
Não ligou, bebeu o leite;
Não ligou, adormeceu no sofá.

Quero dizer que não gosto do seu jeito desdenhoso,
E, também, para que não estrague o sofá
E... Deixa! Deixo...
Só não estrague o sofá.


Wanderson Lana.
20/07/2010

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Cachorros e asas


Houve um tempo onde cachorros vertiam asas,

E sem nenhuma dificuldade, conseguiam nos erguer no vôo.

Preocupados com o gozo, aquém da prudência... Atreviam-se ao mais alto possível.

E lá, onde os pés sempre quiseram tocar sem asas, não se atreviam a nada,

Fiéis, comemoravam um desejo inerente a si...



Este tempo, tempo dos cachorros de asas,

Chovia sempre no fim da tarde, quando o sol, gigante, quase embalado nas montanhas, ameaça desfalecer.

Assim fraco, permitia o perpetuar das poças,

E minha infância corria, mergulhava em sua profundidade rasa e irrelevante.

- Livre...

Escutava latidos formarem sons e fugir.

Enleado, a infância então desprendia e também era som.



Tempo em que podia voar e voltei,

Tempo em que podia falar sem vergonha,

Tempo em que se tinha tempo e o tempo era seu.

Tempo onde cachorros vertiam asas e não negavam o céu...

Tempo a favor, que hoje vento, sopra contra e enruga a face.

Tempo...



Minha infância corre entre poças...

Sorri, solto, e late para um cachorro que... Pode voar o cachorro.

Distantes, mas ali, causando a ilusão de ainda existir.

Num tempo em que podia voar e voltei.



Wanderson Lana



quinta-feira, 17 de junho de 2010

Portão de Madeira ao Relento


Minha casa tem um portão de madeira e tem ferrugem

Tem um portão de madeira sem uma casa pra guardar

Fica ao relento, seguro.

Não cede ao vento, ao rústico, às palavras duras, nem às decepções.

Cede a você...

Ele se abre,

Faz entrar enquanto ainda está fora.

E quando ouço a tranca cerrar, ainda assim permanece.

Longe e está aqui.



Minha casa não tem casa – só portão.

Um portão de madeira enferrujado pela agonia que embrulha o estômago e não escorre.

Ferrugem brotada.

Resistente, trancou-se ao mundo

De todos os caminhos, de todos que bateram a porta, preferiu a agonia...

Preferiu amar ao amor.



Os pés, desgastados, não tocam o chão

Ao longe, parece inevitável desfacelar

Mas é seguro...

Resiste ao vento, ao rústico, às palavras duras... E a decepção?

Enfurruja...

Até um portão de madeira guardião sem casa, enferruja

Ao relento.

Teimoso, só cede a você e a mais ninguém.



Wanderson Lana