terça-feira, 21 de abril de 2020

O Mapa do meu coração


Escrevo coisas bobas já adulto,
Falo de besteiras do peito...
Você não entenderia.
Lançamos pistas e criptografias
Em um terreno onde só crescem desatenção.
Levante o copo e brindemos – Eis o momento:
Aos amigos, aos amores, aos afetos...
Ofereço-lhes o mapa do meu coração.

A primeira estrada
Exige esforço físico e memória,
Olhar a lua e sentir saudades,
Depois correr ouvindo “I Apolodise” do Moss,
Repeti-la sete vezes como um mantra,
Se sorrir, depois de tudo, procure um banco de praça qualquer,
Eu estarei lá com um abraço.

O segundo caminho
Vai lhe roubar pedaços,
É preciso pesar as estrelas partidas e as que iluminam a gente
Na palma das mãos,
Aguenta... Será julgado pela falecimento dos vagalumes
Que nos protegiam do medo...
Assista “Ano Hana” e depois tenha pressa,
Conte até dez e me encontre debaixo da árvore,
Antes que eu desapareça, Lembra?
Eu estarei lá com um abraço.

No terceiro lugar
Não crescem flores,
Pisaram todas e jogaram sal,
Perco-me em pessimismos ao perceber as pétalas amassadas em suas botas
E as mãos sujas do branco que não permite mais crescer.
Será exigida paciência na germinação das rosas e dos afetos,
Sinto dizer que alguns lugares perderam, eternamente,
a possibilidade de produzir de novo,
Leia a página 93 e 94 do livro azul
E reza um mantra enquanto semeia as coisas que destruiu,
Se conseguir me encontrar antes que o sal destrua meu corpo,
Eu juro...
Eu estarei lá com um abraço.

Onde mora o X indicando tesouro
Cercaram das mais medievais e indescritíveis feras e bestas.
Preocupa-me esses monstros construídos no silêncio e na palavra
Eles me prendem...
É me dado o direito de dizer, mas impedem-me de sair,
Eu não grito,
O que assusta o peito protege o coração,
Não há luta,
Eles não possuem a natureza violenta,
Na verdade, toda a raiva se perde no mais raso dos afetos,
É preciso mergulhar...
Cozinhe seu prato favorito e o meu também,
Festeje a alegria de estarmos vivos, mesmo distantes,
Depois, não importará o lugar: eu prometo! Pode ir...
Eu estarei lá com um abraço.


Wanderson Lana
22/04/2020

terça-feira, 14 de abril de 2020

Os quatro cavaleiros


Uniram-se quatro cavaleiros
Cansados da profundidade, falavam de si
De suas certezas do mundo, de suas certezas do outro,
Bebiam nomes alheios a quem descreviam com inconsequentes adjetivos...
Não seriam punidos,
Eram a imagem da gentileza, da bondade e da generosidade,
Suas cascas eram nobres,
Faltavam-lhes recheio,
Mas sabiam, tinham certeza:
O que fica dentro, longe das vistas, não importa.

Naquela noite o tempo resolveu ser cruel com os rasos,
Como faziam nos primórdios os Deuses,
E lançou sobre todo universo perigoso feitiço,
Cada palavra pesada sobre o outro,
Da sua vida "o outro" sairia.
E o capricho do tempo foi lançado,
Sobre a vaidosa caprichosa daqueles quatro.

Uniram-se quatro cavaleiros,
Que se desgostavam na distância
Porém, com almas iguais, juntos se entendiam.
Não percebiam, mas sob suas sombras não cresciam flores.
Embriagados, seus verbos se fizeram justificativas plausíveis de suas condutas,
Todas as maldades justificavam-se no outro,
E maldosos disseram um nome que irritou o universo.

O “Nome” corria sozinho e vacilou, o ar faltou por um momento,
Pensou coisas, sentiu medo
- Era um aviso dos céus –,
A partir daquele momento nada se encaixava...
Algo havia acontecido.
Ao cruzar com os quatro cavaleiros, de maneira separada - eram de lugares diferentes -,
Sentiu mudarem as coisas,
A gente olha diferente para o vidro trincado, pode machucar...

O Primeiro Cavaleiro soube do feitiço e não se importou...
Justificou-se e se apoiou na memória.
Tolo, ainda não compreendia que o universo não esquece.

O segundo cavaleiro pediu desculpas,
Polido, disse as coisas que acreditou que deveria dizer,
Mas esqueceu de sentir...
Não sabia que pelos olhos escapavam a verdade
A desculpa só aplaca quando resultado do remorso,
Essa desculpas, semelhantes às outras, 
Serviu para que ele sim seguisse em frente,
Era sobre ele... Sempre...

O terceiro cavaleiro desconhece,
Não sabe o que se passa e o que irá se passar,
Ferido, recusa-se em sofrer e, sem entender, fere.
Sempre foi o mais profundo, porém, se acostumou a superfície para pertencer,
Quem já escreveu sobre castelos, Iaras e verdes bolitas da cor dos olhos,
Não merecia perde-se assim...

O quarto cavaleiro também desconhece,
Hiperativo, joga quantos jogos forem necessários,
Cansa-se fácil por tentar mostrar o que gostaria de ser,
Esquece de entender-se,
Busca justificativas para alheias a si para distância,
Vaidoso,
Dribla de si todas as causas.

Uniram-se quatro cavaleiros,
Iguais em alma,
E ali decidiram matar a flor...
Mas o universo é borboleta, querido amigo, é borboleta.
Só entende quem prefere voar.


Wanderson Lana
14/04/2020

domingo, 12 de abril de 2020

Os desvalores
















Pega o livro de poemas esquecido na prateleira
Abra aleatoriamente, é mavioso o destino,
Deixa sentir as palavras...
A raiva não vale à pena.

Respira fundo,
Canta uma música quase esquecida,
Talvez da infância, talvez da última vez que dançou,
Respira de novo...
O Rancor não vale à pena.

Escreva uma carta
Guarda na gaveta... Envia...
A caminhada é maior que o lugar.
Exercita o afeto... Olha a lua.
A solidão não vale à pena.

Olha no espelho, levanta o sorriso,
Enruga a felicidade.
Transborda em caretas e despreocupações,
Ama o reflexo, vai, eu prometo!
O medo não vale à pena.

Deita, levanta, deita de novo,
Pensa nos dias, nas cores, nas horas,
Fala sozinho enquanto rebola os pensamentos
Seja pleno, remansoso, profundo, colosso...
Esperar não vale à pena.

Mas a gente sim...
(Não esquece a lua) 
Mas a gente sim.


Wanderson Lana
12/04/2020

sábado, 28 de março de 2020

Segunda Carta ao Amigo


     Alço o primeiro passo vangloriando-me da promessa cumprida de não permitir muito tempo sem minhas palavras. Espero-lhe bem, mesmo com tantos invernos destacando as cores, mas gelando os olhos. Espero-lhe bem, porque assim também ficarei. É estranho caminhar sem a certeza do seu sorriso, mesmo que distante. Estive pensando e acredito ser esse o primeiro sintoma do desamor, o primeiro sinal do desamor... Conseguir caminhar em paz sem a certeza da paz daqueles que há pouco enchiam de sentido as coisas é sinal de que morreu o amor.
     Ainda estamos salvos. Não saberia viver em um mundo onde sua existência não é fato.
   Ando tendo pesadelos, querido amigo, sobre os dias sem você. Puno-me tanto sobre essas distâncias que nos impedem o abraço ao ponto de vislumbra-lo sentando em meio a sala, dizendo coisas sobre seus dias, initendivel, mas o que importa se ouvi-lo me faz sentir-me em casa.
Sente falta de mim assim também? Desculpa, ando inseguro com as coisas, com o mundo. Pego-me receoso em morrer.
     Ontem, acompanhei uma notícia sobre um rapaz de... Quase a minha idade, estava bem, trabalhou, gastou o seu dia como gastam os desavisados e assim continuou. Cinco dias depois já não existia no mundo, era passado. Não parece certo morrer assim, mas se morre. Dei-me por mim... A sua inexistência me tiraria o chão...
     Por favor, não morra, não antes de ouvir que o amo, querido amigo, não acredito em filmes, mesmo os apreciando a medida da alma, não acredito em arrependimentos póstumos, nem acho bonito palavras gastas ao corpo já moribundo que não consegue entender direito, dizer: eu também; envolvê-lo nos braços como proteção. Não se deve dizer ao condenado aquilo que privou de dizer quando vivo. É um ato egoísta... Tão amplamente praticado como se fosse a salvação de quem parte.
     Eu aprendi com a vida, meu amigo... Dizer que ama ao moribundo ou ao cadáver é a salvação egoísta de quem vive. Pensa, ouvir coisas ternas só quando não há nada a ser feito. Por que se podendo amar decide-se pela crueldade?
     Escrevo-lhe por querer dizer-lhe agora, e não amanhã sobre minhas saudades, e de como desejo que esteja bem depois de nossa última conversa, ainda por carta, o que me faz duvidar dos meus sentidos por, mesmo assim, percebê-lo tão perto, tão forte enquanto escrevo que sua imagem começa a caminhar pela sala, sentar... cruzando uma perna embaixo da outra sobre o sofá.
     Mesmo com essa nova doença que me apavora e aumenta minha saudade de tudo que amo. Enlouqueço-me imaginando que após cinco dias posso estar sem esses pedaços que constroem a minha felicidade, a minha força, a minha tranquilidade de caminhar. Não saberia perder quem eu amo, não saberia perdê-lo...

     Falei apenas dos meus medos, perdoa-me! Preciso conversar com alguém e você sempre foi bom em esconder seus sentimentos em uma caixa para cuidar dos meus... Dos outros. Confidencia-me: Virou a rua? Você é incrível, direi sempre, e em toda esquina há um abraço de saudade esperando o seu.

Wanderson Lana
28/03/2020

quarta-feira, 25 de março de 2020

Primeira carta ao Amigo






A gente é pendido a ficar parado, com medo. Esperando alguma coisa que acredita merecer. Somos o menino que encontrou a planta murcha sem sentir o cheio. Ali parado, sem ainda entender, cai no cócoras enquanto o peito corre... Fica velando o que não foi enquanto a vida acontece. Caminhamos com nossa frustação tão dependente do outro: do abraço do outro, do cheiro do outro, do riso do outro, da alegria do outro, das lágrimas do outro, do sotaque do outro... Obcecar-se de coisas que só existem na gente mata nosso tempo e a gente tem pouco tempo.
Querido amigo, escreverei com mais frequência. Ausente, causei coisas das quais me envergonho. Perdoa-me primeiro, mas devo dizer as palavras como elas se alinham em minha mente. Pecarei por excesso, como pecam os prolixos, porém, prometo compensá-los com uma retórica cheia de afeto. Acredite em mim: Eu te amo!
Não se enamore pelo desgosto, alerto-te dessa prática dos romances que leu e encerrava de maneira heroica a curva dramática daquele que não foi correspondido. O desgosto não combina com pessoas que amam tanto. E não, nem sempre é justo o que nos acomete. Não fica parado justificado as feridas plantadas em ti pela ausência de palavras e de afetos enquanto se martiriza pelas feridas protagonizados por seus gestos ao peito alheio. Queria abraça-lo agora, contrariado pela distancia, beijo as palavras para que sinta meu hálito enquanto lê, minhas letras sonham em ser presença em sua vida.
As vezes somos fiéis com medo de perder coisas que não mais existem. E com medo de perder inexistências nos perdemos de nós mesmos e deixamos de ser existência. Vão aparecer outras pessoas e nem tudo precisará mais ser tão profundo como já não o é agora. Deixa ir, deixa ser, deixa não ser... Você gritou ao mundo que amava e não foi amado... não sinto vergonha! Não há eco para o amor. O infinito só repete o vazio.
Ontem encontrei um desenho... Um presente... Um pedaço do outro vivendo em minha casa. Havia tantas boas lembranças, tantos bons momentos ali entre cervejas e vinho. Então o arremessei ao fogo – o desenho – instantaneamente sem nenhum remorso e explico: esquecemos a solidão causada, o desamor calculado pela menor lembrança boa ou pelo menor aceno de gentileza. Quando nutrimos afeto por alguém ofertamos todas as nossas subjetividades em troca de um momento, de uma esperança. Esperança na vida é substantivo e não verbo de ação. Entende o que digo? Não aceite nada menor que esse seu coração que alegra meus dias ou oferte a mesma força... pesa caminhar tanto tempo assim, tísico, em desequilíbrio.
Não digo ser indolor, mas se já dói por que não doer diferente? Estrada repetida só tem sentido quando no final também te anseia outro coração, se não, faz a curva, querido amigo, e bebe alguma coisa na esquina dos seus medos... Ressaca vira lembrança (bebo agora) mãos trôpegas formando frases que deveriam combinar. Posso perder a qualidade de encaixá-las em breve, mas prometo não perder a fé que motiva a escrever-te. Falava de curvas e estradas... temo estar perdido. Engraçado construir estradas pelas quais caminham desconhecidos. Você olha e pensa, conheço quem caminha, mas os olhares são tão distantes... Não é possível tocar mais, falar mais, sentir mais... São estranhos e distantes e continuam ali, caminhando na sua rua que, de repente, não é sua mais, você é estranho ali... E por sentir demais, você é intenso demais e, e... sua rua não te cabe (vira a esquina, já disse). Quando o caminho não é mais seu, nenhum passo será o suficiente.
É tão bom ser amado – Você ainda se lembra? – Ser motivo de saudade, complexo de nostalgia. Amigos também são amores e partem... e maioria dos seus partiram sem avisá-lo da partida – desculpa ser direto, a bebida me causa rispidez –, deixaram pequenas presenças que teimam em te esvaziar e você é incrível... Mesmo vazio, você é incrível. Dizem-te isso? Acordam e dizem como é especial? Como toca o vento, de doçura, as suas palavras? Como o universo brinca de fazer o centro em ti? Dizem-te eu te amo e abraçam-te com frequência?
A humanidade criou-te como capricho... É impossível olhá-lo e não querer ser melhor.
Teimo, então, em insistir: Vire a rua! Não é justo que te construa em defeitos, que paguem teus afetos com a distância, que colham seus abraços e plantem flores murchas em seu jardim... Nele tudo vive, meu amigo, seu peito é fértil de abraços. Sofrerei contigo se assim fizer necessário, mas vire a rua... Não tenha medo, só não fique aí.
Despeço-me com a certeza de brevidade.


Wanderson Lana
25/03/2020

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Conversas sobre um cachorro amarelo




Você virou saudade que não deseja encontro,
Lembrança boa
Trancado no coração para não voltar,
Dança de bêbados...

Quem diria que no passado seríamos eternos assim,
Nessa distância saudável que nós criamos,
Sorrimos
e comemoramos nossas ausências sem culpar ninguém,
além de um ao outro,
Como fazem os... desfeitos.

Somos desfeitos,
Braços e pernas caindo na estrada,
ritmo verde em um céu escuro,
dançamos lá em algum momento.
Desfeitos,
Assim nos apresentaremos a partir de agora:
desfeitos...
De palavras, do toque, da gente...
Bêbados dançando no céu, lembra?
Lembra do céu de quando a gente se estava para a gente?

Lembrança boa...
Saudade que não deseja encontro.


Wanderson Lana
01/05/2017



Pretérito imperfeito







Estava pensando em você,
Estava querendo dizer algumas coisas...
palavras tortas, iguais, palavras minhas, coisas minhas.

Eu ía te ligar,
Desisti pela hora, pelas outras coisas, por qualquer outra coisa,
Ía mandar um sinal que já não me lembro porque não mandei.

Precisava dizer algo e esqueci,
Não era importante ontem
e hoje virou um amontoado de sorrisos melhores.

Eu ía te ver,
Mas cansado da gente preferi a tv, o sono.
A possibilidade da presença, da sua presença...
Ela... A possibilidade... 
Não vou dizer,
Falava outra coisa.

Eu te amaria...
Desculpa... Futuro imperfeito.
As vezes a nossa conjugação sai errada,
às vezes a gente se acomoda em qualquer tempo da conjugação.

Acho uma besteira você me esperar no presente.


                                                                             Wanderson Lana
                                                                             01/05/2017






sábado, 22 de abril de 2017

I - Querido amigo





A gente não se encontra mais,
nossos olhares e saudades custam presenças que partiram antes.
Ainda sorrimos um pouco
antes da palavra atravessada que vem de mim ou parte de ti.

Não posso consertar isso...
Perdão... não posso.

Eu tentei uma carta,
escrita  num soluço,
como mão que salta do papel apenas quando encerrado o que vacila o coração...
Eu te escrevi, lembra?
À ti, sobre ti, em ti.
Como se pudessem as palavras mudar o mundo.
Tolo!
Poeta perdido em suas próprias histórias.

A gente não se encontra mais.
Crescer tem disso, esqueci de dizer,
Ninguém aparece para juntar as folhas que você chutou no quintal.
Seus soluços fora do tom,
Desdizer...
Quem sabe se fosse possível desdizer...
"Você estragou a minha quinta"
"São péssimos meus passos quando só me sobra ti"
"Foram difíceis minhas horas com ele"
"Tenho medo de dizer qualquer coisa"
"Nada mais digo, são suas todas as verdades"...
Desouvir...
Desouvir, talvez, fosse o melhor caminho para dar-te de novo as mãos e ficar com toda essa raiva que sente de mim.


Desamá-lo, agora, é a maior justiça que faço ao nosso afeto.
dar-te-á fruto que não alcanço e eu... Crescerei meus galhos até o vento,
abrirei meus poros para ouvir...
- Você é especial - te disse...
Agora careço dos que me sintam assim também.
Sou vento... Sou galho solto no ar.
abraço apertado,
a palavra sim,
o desespero,
a calma...
A pessoa que olha sem graça na tentativa quase trôpega de dizer:
A gente não se encontra mais.


Wanderson Lana
22/04/2017



sábado, 8 de dezembro de 2012

O Monstro debaixo da cama










Desculpa, mas não consigo dormir,
Tem um monstro debaixo da cama.

Não sei como estar protegido, você sabe?
Você pode me ajudar?
Tenho medo de meus pés no chão
 de acender a luz,
Tenho medo do que posso ver...
Fico parado. Estou parado, tenho medo!
Desculpa, eu já disse sobre o medo.
Fico repetindo as coisas e me esqueço do monstro
debaixo da cama,
Esqueço sua existência até tudo ser silêncio,
Aí vem os sonhos, as lembranças e Ele.
Eu de bruços na cama sentindo-o arranhar meu coração,
E não grito,
Aguento calado.
Por muito tempo achei que iria passar...
E passaram-se os dias e não o arranhar do peito,
Desconfiei.

Quer ouvir a história?
Eu sei, sou eu que preciso dormir.
Mas quando desconfiei acreditei outras coisas,
Desacreditei as pessoas.
Agora a hora corre
E continuarei escrevendo.
Não olha assim... Desculpa,
Não consigo dormir.
Tem um mostro debaixo da cama.

Você pode vir aqui acender a luz.



Wanderson Lana
08/12/2012

domingo, 18 de novembro de 2012

Carta



Amigo,


Escrevo-lhe em urgência. Escutei, alguém passeia pela cidade e ignora um passado onde sempre existiu seus olhos, seus gestos e esse seu coração bobo e dependente. Escutei que padece de uma dor profunda que causou a produção exagerada de leucócitos e hoje tem leucemia seu coração. De nada adiantará essas palavras, pois coração doente não age com a razão. A verdade é que as coisas são vazias de razão e só percebemos quando precisamos delas; das coisas e das razões.
Não liga, não fará bem ouvir a voz. Ouvir: - Oi. Tudo bem? E aí? Então tá, até mais... As coisas não vão mudar, amigo. Bate forte seu coração nessas certezas, sente, põe a mão no peito e sente. Está lenta a batida, não é? Tem câncer seu coração. Cuida dele. Coração doente não pede remédio, coração doente acredita. É cristão um coração com leucemia, é cristão.
Peço, por gentileza, desculpas. Não falo da doença que ataca medulas ósseas, falo de uma doença que ninguém disse a você, então como amigo digo: o câncer do coração causado pela produção excessiva de glóbulos brancos, responsáveis por combater amores-que-deveriam-ser-e-não-foram-mas-não-partiram acometem pessoas que mantém a esperança que ainda dará certo. Não existe cura. A oncologia não é capaz nem de diminuir os sintomas da doença: olheiras, insônia, perca de vontade, baixo autoestima, sensação de não-pertencimento, e vontade de chorar. (“Chorar água” e não lágrimas, a diferença está na intensidade. Não existe lágrimas em abundância no corpo, mas água sim e seu corpo chora e fica seco). A Oncologia apenas sugere buscar novos sorrisos. Sei, sei eu prometo, é um tratamento tão doloroso para quem padece, mas é preciso. 
Você não pode perder!
Sei que disse perder e não morrer. Porque câncer de coração não mata, derrota. E ser derrotado é adormecer por dentro e não acordar nunca mais. Por inúmeras que sejam as tentativas uma vez partido, o coração não se junta. O sangue não é cola, amigo, por isso não deixa o coração partir.
Amanhã te escreverei novamente como quem torce para uma recuperação. Seguro sua mão na distância e tenha certeza que muito do meu dia eu ganho pensando em seus sorrisos e suas dores. Quero seu equilíbrio para me ofertar os exageros. Eu te amo e amar é estar perto, na presença e na distância.



Wanderson Lana (17/11/2012)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Dia 29 do segundo mês




Distante vejo sua imagem em meus dias que se foram,
Aos que virão, ainda não é possível ver além da bruma.
Alcanço apenas uma porta guardando um lugar vazio de rostos conhecidos,
Não sei se é meu lugar, mas continuo caminhando... Não posso parar assim, não posso parar aqui.

Sinto saudades das coisas que planejava e não de como elas realmente foram,
Vejo diferente, vejo um mundo diferente quando abro os olhos para viver, e não vivo... Fico escondido dentro de mim.

Será que você pode me beijar agora?
Vinte nove vezes, em todo lugar ferido?
Será que você consegue dizer sem desviar os olhos?
Eu prometo escutar, me deixar, beijar também.
Prometo devolver algumas coisas suas que voltaram para o meu peito,
Mas beija, agora, não espera... Beija, a bruma cobriu meu olhos e já não consigo te ver... Você me vê?

Faltam muitas horas para o futuro,
E minha translação é errada...
Sou atingido por planetas e satélites kamikaze em existir.
Então não choro... não, sei caminhar,
em meio a névoa, descobrindo coisas quando não é mais possível evita-las
E sei enfrentar... E provocar enfrentamentos.

Será que você pode me beijar um dia?
Assim, em minha translação errada,
Será que você pode me fazer acreditar?
Sentir saudades dessa minha nossa história tão diferente da nossa história?
É o dia 29 do segundo mês
Ele não vai mais acontecer.


Wanderson Lana
29/02/2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Incidir em mim




Foi involuntário... Debaixo do chuveiro, primeiro dia do ano. Como um ritual rosti bem forte o sabonete no peito limpando os pontos de feridas que não vão sarar, mas limpas não infeccionam. Descansa o coração, orei. Não a Deus, orei a mim, ao Eu de dentro e ele escuta, se você insite um dia escuta. Escutou naquele dia e me fez bonito no espelho. Dois anos me fizeram tão feio, agora a imagem refletida é bonita... Sou o mesmo e a imagem não.

As roupas eram novas, o lugar novo, as pessoas me olhavam, me amavam, me queriam e eu também querendo conhecer todas aquelas pessoas que já conhecia, doar a elas todos os meus sorrisos, minha presença, o meu lado feliz - que existe, eu promete, ele existe. - Eu querendo correr com qualquer alguém capaz de segurar minha mão bem forte e dizer "Estou aqui, não vou até o fim da estrada contigo, mas enquanto estivermos ligados não te deixo... E depois prometo lembrar sempre e te fazer saber que lembro", sorrindo deixo, me deixo. Correndo e conversando coisas profundas e vertendo lágrimas ebolidas pela pele sem deixar marcas. Eu me vejo assim. Então abraço todo mundo, olho uma moça de olhos claros e sinto seu amor, retribuo sem medo com olhos de "Você me esperou e estou aqui... Obrigado por me esperar".

Não há certezas agora, não se confunda. Na verdade aprendi que nada nunca é certeza, que certeza é uma palavra como futuro, existe, mas é abstrato e inalcansável. Entende? Eu entendo... Entende também.

Sou como uma poema: cheio de palavras erradas. Sim, uma palavra só é bonita em um poema porque está errada, palavras certas são da gramática e não da poesia. No poema elas dizem outras coisas, não é o que está escrito, amor... amor... Leia com o peito, vai. Verbo de poema não conjuga. E sou pretérito imperfeito nesse presente reticente de um futuro sem pretérito nenhum. Corre comigo, segura minha mão e diz que vai lembrar e vai me fazer saber que lembrou. Corre comigo...


Wanderson Lana

terça-feira, 21 de junho de 2011

A lápis



Não foi rabisco,
E ainda assim toda escrita a lápis.

Nos campos do romantismo, onde pássaros e flores ornavam o cenário
E o vento certo carregava um futuro que era possível alcançar,
Palavras ditas e silenciadas não existem mais...
Acreditar no baú que guarda é se perder do tesouro.
Então olho o branco da folha,
Sinto uma história
E até afirmo poder ver,
Mas no branco da folha, só há o branco...

- Eu sinto... eu sinto...
E crio histórias de sentir,
Histórias de chorar,
Histórias de amor...
Que estavam ali, – Eu juro!
E que agora eu crio.

Você me escreveu a lápis,
E já não escavam vestígios meus em seu peito.
Sempre volta para as coisas que me afastam e lá
Permanece seguro, entendo... E me afasto.
Estou quieto...
Choro a noite por ter escrito assim, com letra bonita e cuidadosa,
Com uma tinta que demora, mas sai.

Chorou e ainda chora pela partida de outros amores,
Mas à minha se alegra, embarca a escrever
Em rascunhos as verdadeiras palavras de amor
Que a borracha não apaga...
Apaga a mim... Papel em branco, não há mais nada.
Foi escrito a lápis,
Se lembra, é com segredo e não sorriso.

Não é raiva, ou dor ou solidão...
É tristeza de um coração dizendo:
“Se era preciso escrever a lápis, não escrevesse então”.


Wanderson Lana
      21/06/2011

terça-feira, 17 de maio de 2011

Abstinência








Há um grande pedaço do todo de mim que padece em abstinência,
Não porque parou, porque busca e não pode encontrar...
Tenho sonhos, carinho, beijos e abraços,
Mas não tenho palavras...
Careço as palavras.

Se os beijos me acalmam,
Se os abraços me confortam,
Está nas palavras a paz que me permite seguir.

Então caminho assim,
Olho e não vejo e aceito... E espero as palavras,
E concedo as palavras
Em formas, cores, sons,
Em gosto que meus lábios já recebem.

Olho singelo e peço pronomes, verbos, adjetivos...
Para que assim o dia possa começar.
Estou parado há algum tempo,
Se você me ver
Responda que dia é hoje.

Está nas palavras a paz que me permite seguir.


Wanderson Lana
     17/05/2011